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Bolhas flutuantes em tons pastel

O Futuro do ESG na Construção: quando sustentabilidade passa a definir valor, risco e competitividade

  • Foto do escritor: Alexandra Diniz de Assis
    Alexandra Diniz de Assis
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

Durante anos, ESG foi tratado no setor da construção como uma agenda complementar: importante para reputação, desejável para investidores e, em muitos casos, associada principalmente à obtenção de certificações ambientais.

Esse cenário está mudando.

O futuro do ESG na construção não será definido pela quantidade de selos na parede, mas pela capacidade de um empreendimento demonstrar desempenho ambiental, resiliência, eficiência operacional, qualidade social e governança por meio de dados confiáveis.

Em outras palavras: ESG está deixando de ser um atributo do empreendimento para se tornar parte de sua lógica econômica.


O edifício começa a ser analisado como um ativo de risco

A transformação mais relevante talvez esteja acontecendo na forma como investidores, instituições financeiras, incorporadores e gestores de ativos enxergam um edifício.

Um empreendimento não é apenas metros quadrados construídos.

Ele possui exposição a custos de energia, disponibilidade de água, eventos climáticos extremos, mudanças regulatórias, exigências de investidores, preferência dos ocupantes, seguros, financiamento e eventual obsolescência tecnológica.

Por isso, questões antes classificadas como “ambientais” passam a ser analisadas como questões de negócio.

Quanto custa operar este ativo?

Qual será sua exposição a eventos climáticos?

Quanto carbono está incorporado em seus materiais?

Como ele performará diante de novas exigências regulatórias?

Existe risco de obsolescência?

O empreendimento continuará atrativo para ocupantes e investidores daqui a 10, 15 ou 20 anos?

Essas perguntas aproximam ESG diretamente da gestão de ativos.


Do carbono operacional ao carbono incorporado

Durante muito tempo, a discussão sobre carbono na construção concentrou-se principalmente no consumo de energia durante a operação.

Agora, o olhar está avançando para todo o ciclo de vida.

O carbono incorporado (associado à produção, transporte, instalação, manutenção e substituição de materiais e componentes) ganhou espaço relevante nas métricas internacionais.

Segundo o GRESB¹, o ambiente construído responde por aproximadamente 42% das emissões globais anuais de GEE, considerando emissões operacionais e aquelas associadas a materiais e processos construtivos. Mais importante: em 2025, 50% dos participantes de desenvolvimento avaliados por ele declararam medir carbono incorporado em novos empreendimentos ou grandes reformas, contra 24% em 2023.

O movimento não é apenas conceitual.

O GRESB passou a incorporar critérios relacionados a carbono incorporado em seus padrões e, a partir de 2026, esses elementos passaram a ter impacto na avaliação. A organização também prevê uma mudança para reporte em nível de ativo para carbono inicial a partir de 2027.

Isso sinaliza uma mudança importante:

medir passa a ser parte da gestão do ativo.


ESG também está chegando à linguagem financeira

Outra transformação estrutural vem dos padrões de divulgação de sustentabilidade.

O ISSB publicou, em 2023, as normas IFRS S1 e IFRS S2, estabelecendo uma referência global para divulgação de riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e ao clima para os mercados de capitais. A IFRS S1, por exemplo, está orientada para informações capazes de afetar fluxos de caixa, acesso a financiamento ou custo de capital no curto, médio ou longo prazo.

Isso muda a pergunta.

Não basta mais dizer:

“Este empreendimento é sustentável.”

Será necessário responder:

“Como a sustentabilidade, ou a ausência dela, afeta o desempenho e o risco deste ativo?”

Essa é uma pergunta muito mais sofisticada.


O “S” também ganha espaço

Se o E costuma dominar as discussões sobre construção sustentável, o S começa a ganhar relevância estratégica.

Saúde, segurança, conforto térmico, qualidade do ar, acessibilidade, mobilidade, bem-estar dos usuários, segurança dos trabalhadores e impacto sobre comunidades fazem parte da qualidade de um empreendimento.

E existe uma razão econômica para isso.

Um edifício é ocupado por pessoas.

Portanto, desempenho ambiental sem desempenho humano é uma equação incompleta.

A eficiência energética pode reduzir despesas. Mas conforto, saúde e qualidade do ambiente interno também podem influenciar produtividade, satisfação e permanência dos ocupantes.

O ESG do futuro será menos sobre “o que foi instalado” e mais sobre o que o empreendimento entrega.


E a governança?

Aqui está uma das grandes fronteiras.

Dados ambientais precisam ter metodologia, rastreabilidade, responsáveis, controles e evidências.

Inventário de emissões precisa ser confiável.

Indicadores de energia precisam ter histórico (e certificações exigem isso).

Informações sobre resíduos precisam ser verificáveis.

Metas precisam possuir responsáveis, prazos e indicadores.

A governança transforma sustentabilidade em gestão.

Sem ela, ESG corre o risco de continuar sendo uma coleção de boas intenções.


O novo diferencial: performance comprovada

O mercado imobiliário tende a caminhar de uma lógica baseada em atributos para uma lógica baseada em performance.

Certificação continuará importante.

Mas certificação não substitui desempenho.

Um edifício pode ter excelente projeto e, depois de ocupado, apresentar consumo energético muito acima do previsto.

Pode possuir tecnologias eficientes, mas não ter gestão adequada.

Pode ter metas climáticas, mas não possuir dados suficientes para demonstrar evolução.

O próximo estágio da construção sustentável será justamente conectar projeto → operação → dados → gestão → valor.


O que isso significa para empresas do setor?

Para incorporadoras, construtoras, proprietários e gestores de ativos, a preparação começa antes da exigência regulatória.

Significa incorporar ESG ao ciclo de decisão do empreendimento:

  • avaliação de riscos climáticos;

  • eficiência energética e hídrica;

  • carbono incorporado;

  • seleção responsável de materiais;

  • gestão de resíduos;

  • biodiversidade e uso do solo;

  • saúde e segurança;

  • qualidade ambiental interna;

  • resiliência;

  • governança de dados;

  • indicadores de desempenho;

  • transparência para investidores e stakeholders.

A questão já não é se ESG fará parte do futuro da construção.

A questão é quanto valor será perdido por quem chegar atrasado.


O futuro não será apenas “verde”. Será performático.

A construção civil está entrando em uma fase em que sustentabilidade precisará ser mensurável, comparável e financeiramente compreensível.

Isso representa uma oportunidade extraordinária.

Porque quando sustentabilidade deixa de ser apenas discurso e passa a ser traduzida em risco, custo, eficiência, resiliência, atratividade e valor, ela passa a ocupar a mesa de decisão.

E é exatamente aí que ESG começa a mudar o setor.


Para acompanhar

A evolução dos padrões do GRESB, das normas IFRS S1/S2 e das métricas de carbono incorporado merece acompanhamento constante por empresas que atuam em desenvolvimento, investimento, gestão e operação de ativos imobiliários.


¹ GRESB (Global Real Estate Sustainability Benchmark) é um sistema internacional de avaliação e benchmarking (comparação de desempenho) focado em critérios ESG


Fontes principais: GRESB; IFRS Foundation/ISSB; World Green Building Council.


 
 
 

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