Eficiência Energética e Valorização: quando economizar energia também significa proteger e aumentar o valor do ativo
- Alexandra Diniz de Assis
- há 6 dias
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Atualizado: há 6 dias
Durante muito tempo, eficiência energética foi apresentada principalmente como uma estratégia para reduzir despesas operacionais.
Trocar iluminação.
Melhorar climatização.
Instalar automação.
Gerar energia solar.
Reduzir consumo.
Tudo correto.
Mas existe uma dimensão econômica ainda mais interessante:
a eficiência energética pode deixar de ser apenas uma estratégia de redução de custos para se tornar uma estratégia de valorização imobiliária.
E essa mudança é particularmente relevante para empreendimentos comerciais.
O custo da energia não termina na conta
Imagine dois edifícios comerciais semelhantes.
Mesmo padrão construtivo.
Mesma localização.
Áreas equivalentes.
Um deles, entretanto, possui sistemas mais eficientes, automação predial, gestão inteligente de energia, equipamentos de alto desempenho e menor intensidade energética.
O outro mantém sistemas convencionais, maior consumo e pouca capacidade de monitoramento.
Na operação, a diferença aparece mensalmente.
Mas ela não precisa parar na conta de energia.
Ela pode aparecer também na atratividade do ativo, no custo operacional, na experiência do ocupante, na resiliência e, potencialmente, no valor de mercado.
Os números começam a sustentar essa tese
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que os edifícios respondem por aproximadamente 30% da demanda global de energia. Ou seja: eficiência energética não é um detalhe técnico.
É uma variável econômica relevante para um dos maiores estoques de ativos físicos do planeta.
E há evidências de que o mercado reconhece parte desse desempenho.
Em uma análise publicada em 2025, a IEA reuniu estudos indicando prêmios de venda de aproximadamente 13% a 20% para edifícios comerciais energeticamente eficientes, embora os resultados variem conforme mercado, metodologia e características dos ativos. A mesma análise aponta potencial de redução de vacância e aumento da vida útil de equipamentos.
Isso não significa que instalar tecnologia automaticamente acrescente 20% ao preço de um edifício.
Significa algo mais importante:
eficiência energética pode possuir valor econômico que ultrapassa a economia direta na operação.
Mas onde está esse valor?
Podemos pensar em cinco camadas.
1. Redução do OPEX
É a camada mais evidente.
Menor consumo de energia significa potencialmente menor despesa operacional.
Em ativos comerciais, essa redução pode melhorar o desempenho operacional e liberar recursos para outras necessidades.
Mas aqui está apenas o primeiro nível.
2. Menor exposição à volatilidade
Eficiência energética também funciona como uma forma de proteção.
Quanto menos dependente do consumo intensivo de energia um empreendimento é, menor tende a ser sua exposição a aumentos de preços e oscilações do mercado energético.
Eficiência, nesse sentido, também é resiliência econômica.
3. Maior atratividade para ocupantes
Empresas estão cada vez mais interessadas nas características dos imóveis que ocupam.
Um edifício eficiente pode contribuir para metas corporativas de carbono, relatórios ESG e compromissos de descarbonização.
Além disso, conforto térmico, qualidade ambiental e tecnologia predial podem influenciar a experiência do usuário.
O edifício deixa de ser apenas endereço.
Passa a ser parte da estratégia corporativa do ocupante.
4. Diferenciação do ativo
Em mercados com grande oferta de espaços semelhantes, eficiência pode funcionar como elemento de diferenciação.
Isso ganha importância especialmente quando o mercado passa a comparar ativos por indicadores objetivos.
Consumo energético.
Emissões.
Certificação.
Intensidade de carbono.
Desempenho operacional.
Resiliência.
Dados deixam de ser apenas informação técnica e passam a alimentar decisões de investimento.
5. Potencial impacto sobre valor de mercado
Aqui chegamos à parte mais interessante e também à que exige mais cautela.
Pesquisas acadêmicas encontraram prêmios associados a edifícios verdes e energeticamente eficientes.
Um estudo sobre edifícios de escritórios encontrou prêmios de aluguel de aproximadamente 3% a 5% para propriedades com certificações como LEED, enquanto outro estudo encontrou prêmios relevantes associados à eficiência energética e certificação.
Mais recentemente, uma pesquisa com transações no mercado de varejo encontrou prêmio significativo no aluguel por metro quadrado para imóveis classificados como EPC¹ C ou superior, embora os efeitos sobre valor de capital tenham sido mais complexos.
É importante não transformar esses números em promessa comercial.
Não existe uma “fórmula universal” que converta kWh economizado em percentual de valorização.
Mercado, localização, qualidade do imóvel, demanda, certificação, idade, contrato de locação, características técnicas e metodologia de avaliação interferem no resultado.
Mas existe uma tendência consistente o suficiente para merecer atenção estratégica.
A tecnologia sozinha não cria valor
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Instalar painéis fotovoltaicos não significa automaticamente ter um ativo mais valioso.
Trocar lâmpadas também não.
Automação predial tampouco.
O valor nasce da combinação entre:
tecnologia + desempenho + gestão + dados + evidência + percepção de mercado.
Um sistema eficiente que não é monitorado pode perder performance.
Um edifício eficiente sem dados comparáveis tem dificuldade de provar seu desempenho.
E uma melhoria que reduz custos, mas não é incorporada à estratégia do ativo, pode ter seu potencial econômico subaproveitado.
O novo CAPEX precisa ser analisado como investimento
A pergunta tradicional é: “Quanto custa instalar?”
A pergunta estratégica deveria ser: “Qual é o retorno total desse investimento ao longo do ciclo de vida do ativo?”
Isso muda completamente a análise.
Uma solução pode ter um CAPEX inicial maior e, ainda assim, apresentar melhor retorno quando considerados:
economia de energia;
manutenção;
vida útil;
conforto;
produtividade;
redução de emissões;
resiliência;
risco regulatório;
atratividade para ocupantes;
custo de capital;
potencial de valorização;
liquidez futura.
É a passagem da lógica de menor custo inicial para maior valor ao longo do ciclo de vida.
Eficiência energética como estratégia de future-proofing
O mercado imobiliário precisa lidar com uma questão inevitável: o edifício construído hoje continuará competitivo amanhã?
A resposta dependerá cada vez mais de sua capacidade de acompanhar mudanças tecnológicas, regulatórias, climáticas e econômicas.
Edifícios ineficientes podem enfrentar custos crescentes de retrofit e maior risco de obsolescência.
Edifícios preparados para medir, controlar e melhorar seu desempenho possuem uma vantagem: conseguem evoluir.
E isso tem valor.
O ativo do futuro será medido em mais de metros quadrados
O mercado imobiliário está lentamente aprendendo a enxergar uma nova unidade de valor: não apenas quanto espaço o edifício oferece, mas quão bem ele performa.
Eficiência energética é uma das portas de entrada dessa transformação.
Ela reduz custos.
Pode aumentar resiliência.
Pode melhorar a experiência dos usuários.
Pode contribuir para metas climáticas.
Pode tornar o ativo mais competitivo.
E, dependendo das condições do mercado, pode contribuir para seu valor econômico.
Por isso, eficiência energética não deveria ser tratada apenas como uma despesa técnica ou uma obrigação ambiental.
É uma decisão de investimento.
E quanto mais o mercado aprender a precificar desempenho, menos sentido fará construir barato para operar caro.
¹ A sigla EPC significa Energy Performance Certificate (Certificado de Desempenho Energético), um sistema oficial usado em países como o Reino Unido e em nações europeias para avaliar o consumo de energia de edifícios.
Fontes:
World Green Building Council (WGBC)
International Energy Agency (IEA). Energy Efficiency 2025 — Buildings. 2025.
International Energy Agency (IEA). Asset Values — Multiple Benefits of Energy Efficiency. 2025.
Fuerst, F.; McAllister, P. Eco-labeling in commercial office markets: Do LEED and Energy Star offices obtain multiple premiums? Ecological Economics, 2011.
The impact of energy labels and accessibility on office rents. Energy Policy, 2012





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